Dedico este texto analítico ao meu vô Artibano — meu bisavô —, com quem tive a honra de compartilhar minha primeira infância, aprender a estalar os dedos e assoviar para amenizar tempos de tédio.
A língua que falamos em casa raramente é vista como algo político. Mas ela é. Ela carrega memórias, afetos, histórias inteiras — e, quando desaparece, leva consigo muito mais do que palavras. No Brasil, a perda das línguas de herança é um fenômeno silencioso, construído ao longo do tempo por repressões históricas e também por processos mais sutis de assimilação. Não é algo isolado: atravessa gerações, famílias e diferentes grupos, conectando o passado do país ao presente de brasileiros no exterior.
Na minha própria história, isso aparece de forma muito concreta. Meu bisavô veio da Itália durante as grandes ondas migratórias do início do século XX. Ele falava italiano. Essa era a língua dele, do cotidiano, da vida. Mas ela não chegou até mim. Em algum ponto entre a geração dele e a minha, o idioma se perdeu — e, com ele, uma parte da minha própria identidade. Eu sou, de certa forma, resultado desse processo: um exemplo vivo de um “vazio cultural” que não aconteceu por acaso, mas foi sendo construído ao longo do tempo.
O Estado Novo e o Apagamento Institucional de Idiomas no Brasil
Durante o Estado Novo (1937–1945), esse apagamento ganhou forma institucional. O governo brasileiro implementou políticas de repressão linguística que atingiram diversas comunidades de imigrantes, incluindo alemães, italianos e japoneses. A chamada Campanha de Nacionalização proibiu o uso público dessas línguas, fechou escolas comunitárias e chegou a tratar materiais escolares como ameaça. Como aponta a antropóloga Giralda Seyferth, há aí um paradoxo profundo: o mesmo Estado que incentivou a vinda desses imigrantes para trabalhar e ocupar o país passou, depois, a punir exatamente aquilo que os tornava quem eram.
Mas esse movimento não começa ali. Desde a colonização, o Brasil construiu sua ideia de unidade impondo o português e apagando outras línguas. Em 1758, por exemplo, o Diretório dos Índios proibiu o uso da Língua Geral (Nheengatu), que era amplamente falada no território. Esse tipo de política se conecta ao que a filósofa Sueli Carneiro chama de epistemicídio:
o apagamento sistemático de formas de saber, de falar e de existir.
Ou seja, o silenciamento linguístico não é exceção na nossa história — ele é padrão.
Bilinguismo Subtrativo e o Monolinguismo de Sobrevivência
E talvez por isso exista algo de profundamente irônico na minha própria trajetória. Hoje, eu trabalho para que brasileiros no exterior mantenham viva a língua portuguesa — a mesma língua que, dentro do Brasil, foi usada para silenciar tantas outras.
Diante desse cenário, muitas famílias fizeram o que era possível: proteger seus filhos. Deixaram de ensinar suas línguas de origem para evitar discriminação, violência ou exclusão. Do ponto de vista da sociolinguística, isso é chamado de bilinguismo subtrativo — quando uma língua não é somada à outra, mas substituída por ela. Pesquisas mostram que esse tipo de decisão, muitas vezes marcada por trauma, leva ao abandono quase definitivo da língua ancestral. O resultado é o que podemos chamar de um “monolinguismo de sobrevivência”.
As consequências disso ainda estão entre nós. Muitos brasileiros descendentes de imigrantes — europeus, asiáticos, indígenas, africanos — sentem que pertencem a uma história que não conseguem acessar completamente. A língua, que poderia ser ponte, vira ausência. Fica uma sensação difícil de nomear: um pertencimento incompleto, um vazio que não é só individual, mas coletivo.
Português como Língua de Herança: O Desafio da Terceira Geração
Esse passado lança um alerta direto para o presente. Hoje, milhões de brasileiros vivem fora do país, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Nesse contexto, fala-se cada vez mais em Português como Língua de Herança — o esforço de manter o idioma dentro das famílias, mesmo longe do Brasil. Mas a história mostra que, sem apoio e sem intenção clara, a língua tende a desaparecer ao longo das gerações — muitas vezes já na terceira.
Como explica Joshua Fishman, um dos principais estudiosos do tema, uma língua só sobrevive quando continua sendo transmitida dentro da família. Em contextos de imigração, existe um padrão recorrente: a primeira geração mantém a língua de origem, a segunda cresce bilíngue, e a terceira, se não houver esforço consciente, tende a falar apenas a língua dominante do país. O idioma de herança não desaparece de uma vez — ele vai se tornando fragmento: palavras soltas, expressões, lembranças.
Mas aqui entra um ponto essencial. Defender o português como língua de herança não pode ser feito de forma simplista. O brasileiro no exterior quase nunca tem uma identidade única. Ele pode ser, ao mesmo tempo, descendente de italianos, japoneses, indígenas, africanos — e brasileiro. E o próprio português carrega uma ambiguidade: é língua de afeto na diáspora, mas também foi instrumento de apagamento dentro do Brasil.
Conclusão: Rompendo o Silêncio entre Gerações
Por isso, preservar uma língua não deveria significar apagar outras. Pelo contrário: deveria abrir espaço para que todas coexistam. Manter o português, nesse contexto, é também reconhecer essa complexidade — sem repetir as mesmas lógicas de silenciamento que marcaram o passado.
A história brasileira já mostrou o que acontece quando uma língua deixa de ser transmitida. O silêncio entre gerações não é apenas a perda de palavras — é a perda de vínculos, de memórias, de formas de ver o mundo.
Hoje, ainda estamos a tempo de escolher um caminho diferente.

